
MAGALHÃES LIMA
O
1.º de Maio
Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,
Elle en allume une autre á l'eternel flambeau
CASA BERTRAND—JOSÉ BASTOS
CHIADO
LISBOA
O PRIMEIRO DE MAIO
OPRIMEIRO
DE MAIO
POR
S. DE MAGALHÃES LIMA
Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,
Elle en allume une autre á l'eternel flambeau
LISBOA
TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
1894
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Á MEMORIA
DO
MEU QUERIDO MESTRE
E
SAUDOSISSIMO AMIGO
BENOIT MALON
Lisboa, 2 de dezembro de1893.
Magalhães Lima.
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Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Ciprianihavia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na gare de S. Lazare!»
Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem deAsnières. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para melhordizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um terceiroandar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos, afastou docementeo lenço branco que lhe encobria o rosto, e estendeu-nos a mão com carinho ealvoroço, abraçando-nos e beijando-nos, ao mesmo tempo.
A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha oaspecto doentio, morbido,{8} de quem, havia muito, nãodormira ou se achara dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno,illuminado por uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho,alguns jornaes, dobrados uns, abertos outros—Le Rappel, LaPetite Republique Française, La Justice... A atmosphera estavaimpregnada d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. Aum lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos, umapequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura luminosa,transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a enfermeira querida ededicada, que teve a rara coragem e a excepcional perseverança de atravessar osseis longos mezes da doença, passando as noites em vigilia, ao lado do enfermo,sem se deitar...
—É uma heroina!—disse-me Amilcare Cipriani.
E era-o, com effeito.
Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente grav